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Muita Luz e Amor,

Celina Lago

6 de mai de 2016

Por que a iniciativa open source de Aravena é um grande passo para oferecer moradias melhores para todos


Este artigo, escrito pela fundadora de Paperhouse, Joana Pacheco, foi originalmente publicado na Metropolis Magazine como "Aravena's Small Step, Open Source's Big Leap."

Quando Alejandro Aravena foi o ganhador do Prêmio Pritzker no início de abril, fez um anúncio importante: os desenhos de quatro de seus projetos de moradia social estariam desde aquele dia disponíveis no site do Elemental para uso livre.

Através do trabalho do seu escritório Elemental, Aravena é conhecido por seu interesse no desenho participativo de moradia incremental: um modo de trabalhar que está ligado às limitações de orçamento e que se converte em pedra angular do trabalho do estúdio Elemental. O lema - que foca naquilo que é difícil de conseguir, que não se pode fazer de forma individual e que garante o bem estar comum no futuro - tem como resultado a 'metade de uma casa'. Apresentado pela primeira vez há mais de uma década, o modelo consiste em um espaço expansível de 40 metros quadrados, que conta com a infraestrutura básica incorporada (divisões, estrutura e paredes contra-incêndio, banheiros, cozinha, escadas, coberturas) a qual se pode adicionar recintos ao longo do tempo. Não se trata somente de um caso exitoso a partir de um ponto de vista conceitual e de gestão de projetos, mas também têm como resultado um projeto estético aberto e diverso. A partir desta única ideia, pode-se originar mais de 100 variações. 


Muito se tem escrito sobre o desenho participativo como uma forma de enfrentar os desafios de uma urbanização e pobreza urbana sem precedentes, mas pouco se tem escrito sobre a forma em que o intercambio de informação pode ser um impulso positivo na indústria da construção. A ideia do open source não precisa estar restringida a vivência social para aquelas nações mais fortemente afetadas pela pobreza urbana. De fato, a moradia é a principal dívida financeira da classe média nos países desenvolvidos. Segundo a Federal Reserve Board and Bureau of Economic Analysis, a relação entre a dívida e lucro das famílias estadunidenses em 1945 era de 17% e a dívida hipotecária apresentava 3/4 do total. Em 1950 alcançou 31%, enquanto em 1960 já era de 55%. Em 2001, 100%. Mesmo alcançando um pico de 122% em 2005, a relação entre a dívida e receita segue acima de 100% no dia de hoje, e a moradia representa entre 70% e 75% do total. As dívidas hipotecárias minimizam o resto das outras dívidas.


O choque do valor real e especulativo da moradia desencadeou a crise financeira de 2009, cujas repercussões continuam sendo sentidas em todos os setores. Este recente evento deve fazer-nos pensar coletivamente em maneiras de reduzir custos e melhorar o estoque de moradias.

As economias imobiliárias são um tema de oferta e demanda, onde a demanda é composta por todos os compradores e arrendatários, enquanto que o lado da oferta consiste em terras, mão-de-obra e materiais de construção. Nos Estados Unidos, a decomposição do custo de uma nova casa é: compra de terreno (10%) , melhoras do prédio (11%), mão-de-obra (26%), materiais (31%), financiamento (3%), impostos administrativos e de marketing (19%). Os serviços de arquitetura podem agregar 8-15% a este total, levando a maioria das pessoas a desistir de qualquer item de desenho, pois já suportam um balanço de orçamento de 40/60 entre tangíveis versus serviços. Por outra parte, estes custos evitam que a classe média cresça e diversifique seus investimentos em um melhor futuro. 


Ignorando, por um momento, os problemas de escassez de material e segurança do abastecimento, e focando somente nestes números, podemos ver que a mão-de-obra alcança aproximadamente um terço do custo de uma casa, enquanto os serviços (administrativos, financiamento, comercialização, arquitetura e engenharia) representam outro terço. Se aumentamos o papel da tecnologia e compartilharmos informações livremente sobre todas as partes de um projeto, desde o desenho até a fabricação, não somente podemos diminuir os custos de desenvolvimento da moradia, mas também melhorar sua qualidade.

Esta ideia, claro, é profundamente prejudicial para os interessados no setor da construção. 


Dois anos atrás, quando Nick Dangerfield e eu criamos a Paperhouses, uma plataforma online que desenvolve plantas, modelos e imagens de moradias para seu livre acesso público, queríamos trazer a ideia do open source a 'prancheta'. Estávamos seguros de que era a única resposta viável a este grande problema que enfrenta a arquitetura. O open source permite que a arquitetura diversifique-se e multiplique-se, impulsionando a inovação sem nenhum tipo de limitação de velocidade ou escala.

Entretanto, minha suposição foi que ninguém se uniria, a noção do open source no desenho não é simples. O reconhecimento e a autenticidade são, sem dúvidas, o centro das preocupações do projetista. São bandeiras em uma luta pela sobrevivência e a importância, poderosas e temíveis ao mesmo tempo. Eu somente pude ver o medo, quase horror, do projetista ao lhes sugerir que seus trabalhos arquitetônicos poderiam ser peças de barro que qualquer um poderia montar. A pesar disso, a ideia era muito bonita e poderosa para abandoná-la. Para minha surpresa, muitas pessoas talentosas se uniram: Rintala-Eggertsson architects, ganhadores do Global Award for Sustainable Architecture; Panorama Arquitectos, nominados ao Top 20 Young Architectural Talents da revista Wallpaper em 2013; Sporaarchitects, nomeados ao Mies van der Rohe award em 2015; e Tatiana Bilbao, Berlin Art Prize 2012, entre outros cujas casas logo estarão disponíveis através do Paperhouses.


A recente iniciativa de Aravena em liberar quatro dos seus projetos construídos inicia um longo caminho para promover os benefícios públicos e sociais da colaboração e do intercambio de informação. Ele, deliberadamente, renunciou aos direitos exclusivos de uso, o que significa ceder todos os lucros associados a execução destes desenhos. Fazendo isso, ele reconheceu que o papel mais importante destes projetos é inspirar outros a facilitar soluções aos problemas de moradia que enfrenta nosso mundo em sua rápida urbanização. Para poder outorgar vida própria a um trabalho, sem preconceitos, sem controle e sem medo, é um grande exemplo para a comunidade arquitetônica. O último movimento atrevido de Aravena me dá ainda mais certeza de que o open source se tornará uma iniciativa comum que libertará o desenho e revolucionará a construção de moradias.
Fonte: Archidaily